09/04/2019

Semana do Autismo lota galerias da Câmara e emociona participantes

“Vocês se importam se eu ler?” indaga a jovem às galerias lotadas do Plenário Vereador João Godoy. Sem objeções da plateia, ela prossegue com o texto de sua apresentação: “Sou Letícia Soares, autista, fotógrafa, cineasta e editora de vídeos”.
O depoimento da autista leve de 25 anos, plenamente capaz, provocou lágrimas e risadas do público presente ao 2º dia de programação da Semana de Conscientização do Autismo na última quarta-feira (3/4). Iniciada no dia 2 de abril, data que marca o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, o evento, idealizado e conduzido pela vereadora Ana Cristina Poli (PR), encerrou-se ontem, 08, com peças teatrais, rodas de perguntas, apresentações musicais e palestras, como a de Letícia.
“Eu não conseguia conversar com as pessoas no tempo de escola, mas queria muito ter amigos”, continua a jovem cineasta. No entanto, o prejuízo à comunicação causado pelo autismo parecia uma barreira intransponível para Letícia. “Somente depois de quatro anos tristes, já com 22 anos, arrumei uma terapeuta que me ajudou a falar minhas primeiras frases”.
Depois, também estimulada pela terapeuta, vieram as primeiras tomadas audiovisuais. Letícia estudava cinema sozinha pela internet. Hoje, tem um canal no YouTube chamado Aspie Aventura, onde reúne documentários de curta-metragem nos quais visita autistas de todo o País e os entrevista sobre suas rotinas e atividades prediletas. A série já lhe rendeu dois prêmios de cinema e mais de 1,2 mil inscritos em seu canal.

PIPA
Outro ponto emocionante da noite ocorreu durante a apresentação da banda do grupo Projeto de Integração Pró-Autista (PIPA). O conjunto composto por crianças autistas interpretou a canção Asa Branca, de Luiz Gonzaga.
Na sequência, houve a palestra da terapeuta e especialista em autismo Renata Cristina Abreu, que explanou sobre a Terapia de Vida Diária – TVD, método educacional para crianças autistas desenvolvido na Beneficência Nipo-Brasileira de São Paulo.

Prevalência e características
Outro propósito do 2º dia de debates foi a apresentação de informações relativas ao Transtorno de Espectro Autista (TEA) de forma a combater a desinformação e preconceito. Com o tema “O que é o TEA”, a psicóloga Daniela Martins desmistificou o autismo, definindo-o como “apenas uma maneira diferente de ver o mundo com um jeito único”.
A especialista traçou um panorama da prevalência de casos de autismo, que atinge 1 a cada 59 nascimentos, com proporção de 4 meninos para cada menina. Numa definição do transtorno, a especialista resumiu duas características predominantes: o prejuízo da comunicação social e comportamentos estereotipados.
A comorbidade associada mais comum entre os autistas é a deficiência intelectual, afetando de 60% na 70% das pessoas. O autismo pode ser classificado como leve (quando a criança precisa de pouco apoio), moderado (mais apoio – substancial) ou severo (muito substancial).
Dentre as principais características do TEA – que não necessariamente tem que se manifestar ao mesmo tempo – a especialista elencou:
– Ausência de reação ao ser chamada pelo nome;
– Brincadeiras disfuncionais;
– Andar nas pontas dos pés;
– Tendências de criar rotinas;
– Interesses restritos;
– Fixação de olhar;
– Seletividade alimentar;
– Sensibilidade auditiva;
– Sono desregulado;
– Atrasos significativos ou ausência da presença da linguagem;
– Ecolalias (repetição de palavras do interlocutor).
Dentre as possíveis causas, estão relação genética e ambiente, idade dos pais, parto extremamente prematuro, parto com peso extremamente baixo, uso de medicamentos anticonvulsivante, infecções na gravidez.

Autismo severo e preconceito
Já o palestrante Elizeu Acácio da Silva, ativista e pai de autista, narrou as dificuldades inerentes à criação de um jovem com espectro severo de autismo, partindo de sua experiência como pai.
Mesmo relutante, Elizeu se viu forçado a institucionalizar (internar) o próprio filho, situação sugerida pelos médicos psiquiatras. Foi então que submergiu no universo da institucionalização dos autistas, que segundo ele chegam a 250 pacientes somente no estado de SP.
Embora a Lei preveja residência terapêutica às pessoas com autismo, “na prática essas coisas não acontecem”, definiu. “Não é nenhum paraíso, algumas instituições são verdadeiros manicômios. Infelizmente, é raro se ouvir falar dos autistas institucionalizados, é uma realidade escondida, com muito preconceito”, narra o palestrante.

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